domingo, 9 de abril de 2017




PESSOAS TÓXICAS: A DIFÍCIL ARTE DE CONVIVER



Você conhece ou já conheceu uma pessoa tóxica? Se conheceu, certamente nunca mais a esqueceu e ela deixou marcas profundas em você...

Vitória caminha pelo Parque Trianon com seu cachorro. Somente ele a faz sair de casa. Está esgotada. Falta-lhe energia para cuidar da casa, arrumar-se, sair com os amigos, responder a emails, alimentar-se e, até mesmo ir ao supermercado lhe é difícil. Fred, o amigo peludo, apenas ele a faz levantar da cama após longas noites mal dormidas, porque precisa ser cuidado e alimentado. Aquele "serumaninho" de quatro patas não sabe o bem que está fazendo à sua dona, ou, talvez, saiba. Nunca se deve subestimar a sensibilidade de um cão.

Quem conheceu a bela e vistosa Vitória não consegue entender como alguém pode mudar tanto em tão pouco tempo. É como se o peso da sua tristeza e dor tivesse se acumulado e soterrado toda a sua graça, brilho, entusiasmo, garra e força de vontade.

Até pouco tempo atrás, Vitória era uma pessoa encantadora, carismática, apaixonante, de sorriso largo e feliz. Tinha luz própria. Nas redes sociais suas mensagens sempre falavam de amor, esperança e otimismo.

Aliás, foi por meio das redes sociais que ela reencontrou uma amiga que não via há uns dez anos, a Emanuelle, ou, simplesmente Manu.

Numa tarde de domingo, fazendo uma pesquisa no Facebook, Manu encontrou o perfil da Vitória, a amiga estudiosa com quem havia frequentado (no seu caso, "enfrentado") o ensino médio, aquela que lhe passava cola nas provas e fazia os trabalhos nos quais colocava também o seu nome; a quem pedia blusas e acessórios emprestados para sair, não porque não tivesse, mas porque para Manu o que a Vitória vestia e usava era sempre mais bonito e vistoso; a mesma que era querida pelos amigos e foi escolhida para ser a oradora da turma (Manu ainda lembra da raiva que sentiu por não ser ela a oradora); a colega com quem ela dizia para a mãe que iria estudar, quando ia para a casa do namorado. “- Olha a Vitória aí! Não mudou nada!”.

Não tardou para estarem trocando mensagens e pouco tempo depois se encontrando.

Manu quis saber que rumo tomara a vida da amiga. Vitória lhe contou que recentemente havia perdido a mãe devido a um derrame, o que ainda doía muito; e que após a formatura, fez Publicidade na FAAP, conseguiu um estágio na área, tendo sido efetivada pela agência ao concluir o curso e promovida recentemente a coordenadora do setor de criação. Ali havia conhecido o Marcelo, também publicitário e sócio da agência, de quem por ora estava separada, mas em vias de reatar o noivado.

Manu, por sua vez, disse não haver levado adiante os estudos, por ter sido obrigada a trabalhar para ajudar a família, ahãmmm..., quem a conhece sabe que ela sempre foi paparicada, teve tudo o quis e que na verdade ela nunca foi chegada aos estudos ou ao trabalho. No mais, queixou-se de não ter sorte na vida, nem no trabalho nem no amor. Disse que quando consegue um emprego acaba sendo explorada, trabalhando mais que os outros, ou, sendo assediada pelo chefe. Há controvérsias!!! O que se sabe, é que ela tem o péssimo hábito de se autointitular “chefe” dos outros e de estar sempre empurrando o trabalho para os demais, enquanto fica na internet e em suas redes sociais; além de não perder a oportunidade de seduzir as chefias, com uma fala mansa e roupas inapropriadas para o local de trabalho. Enfim...

Não tardou para Manu conhecer os amigos de trabalho da Vitória e o próprio Marcelo. Maluquinha, simpática, envolvente, sedutora, engraçada, vivaz, logo se enturmou com aquela gente tão bacana. Happy hours, viagens, churrascos, confraternizações. Até um emprego de recepcionista Vitória conseguiu para Manu na agência por meio do Marcelo.

Vitória confiava na amiga com quem passou os anos do ensino médio. Ela lhe trazia boas lembranças de uma época onde os sonhos eram maiores que a realidade. No entanto, confiar nas pessoas erradas quase sempre tem o seu preço. Vitória acreditou que tinha ao lado uma amiga, mas na verdade tinha uma pessoa invejosa, fria e calculista. Quando percebeu isso, já era tarde. Vitória havia se esquecido daquela Manu que quando jovem mentia para a mãe, contestava a autoridade dos professores, praticava bullying contra as meninas que eram inseguras, diferentes ou tinham alguma deficiência, se sentia superior às colegas, trapaceava nas provas e nos jogos, pedia emprestadas roupas que não devolvia, tinha prazer em flertar com o namorado das amigas, era intratável, detestável e intragável. 

Como nos tempos de colégio, em pouco tempo Manu havia minado a boa convivência que Vitória conquistara na agência. Começaram os desentendimentos com os amigos, as críticas ao seu trabalho, desavenças e intrigas quase sempre fomentadas pela Manu. A ficha só caiu, quando soube que Marcelo e Manu estavam juntos, a amiga fura-olho o havia seduzido, frustrando qualquer tentativa de reaproximação e de retomada do noivado. Decepcionada e muito chateada, sentindo não haver mais ambiente para continuar ali, Vitória saiu da agência. Despediu-se do emprego que a realizava, do amor a quem se entregara, dos amigos que a faziam sorrir, da amiga em quem confiou, e naquele dia, Vitória se despediu também de si mesma. Aos poucos e sem perceber, foi se tornando triste, solitária e deprimida.

Pessoas tóxicas são como a Manu. Entram na nossa vida, roubam o nosso tempo, destroem a nossa confiança, agridem a nossa autoestima, estilhaçam a nossa fé. E saem ilesas, como se nada tivesse acontecido.

Não, as pessoas tóxicas não têm o rótulo do índice de toxicidade estampado na face, no olhar ou nos gestos. Nem mesmo têm uma característica padrão. Num primeiro momento, elas são como qualquer um de nós, talvez um pouco mais legais, mais interessantes, mais falantes, mais autoconfiantes, mais expressivas, mais dramáticas, mais eloquentes, mais simpáticas, do que o normal. É como se vibrassem sempre num tom acima. Isso, até se conhecer o que guardam no íntimo.

Dizem que aqueles que passam por nós, deixam um pouco de si, e levam um pouco de nós. Quando se trata de pessoas tóxicas, elas nada deixam de si, e levam tudo de nós.

Como reconhecer uma pessoa tóxica?!?

Uma pessoa tóxica é aquela que tentará manipular teus pensamentos e sentimentos para que você ouça apenas o que ela diz, porque quer te dominar. Grudará em você e tudo fará para te afastar dos teus amigos, porque é egoísta. Sentará ao teu lado para destruir a tua autoconfiança e autoestima, porque quer te controlar. Fingirá ser tua amiga, mas será a primeira a te criticar, diminuir e menosprezar, porque te quer vulnerável. Sorrirá para você, enquanto torce para o teu insucesso, porque com o teu fracasso ela se sentirá superior. Debruçará sobre o teu ombro, sussurrando que você não será capaz para te fazer desistir, porque o teu brilho a incomoda. Enxergará o pior naqueles que te amam, porque ela projeta nos outros aquilo que é. Verá você tropeçar e cair, e seguirá em frente sem olhar pra trás, porque ela não sabe o que seja estender a mão a alguém.

Portanto, o melhor a se fazer é manter distância dessas pessoas. Cortar relações: bloquear no Facebook, deletar seus e-mails, excluir da lista de contatos. Achar que por meio do amor e da amizade será possível mudá-las ou transformá-las é ilusão. Ninguém muda ninguém, a não ser que a pessoa queira mudar. E, via de regra, elas não querem mudar, porque se satisfazem e se dão bem sugando os outros, ser sanguessugas é o seu estilo de vida. É preciso saber filtrar e dizer "não" quando necessário, para não adoecer.

Nada acrescenta estar ao lado de alguém que te procura por interesse ou quando precisa de algo, como se você fosse uma fonte inesgotável de coisas e emoções. Nada acrescenta estar próximo de quem não te incentiva, não te aplaude, não te valoriza, como se você não fosse importante. Nada acrescenta estar com alguém que corta a tua energia e entusiasmo, como se a tua alegria e iniciativa fossem descartáveis. Nada acrescenta quem te cobra estar disponível quando lhe convêm e não aceita "nãos", como se você tivesse que ser subserviente às suas vontades e caprichos.

A vida é efêmera demais para perdermos tempo com quem só nos tira, rouba a nossa energia vital e nada acrescenta; com quem violenta aquilo que somos e não respeita nossos sentimentos e emoções. Permitir que o lixo tóxico emocional se acumule ou permaneça ao nosso redor só nos traz desequilíbrio, cansaço e apatia. A vida tem que ser vivida ao lado de quem vale a pena.

Ah... E se querem saber... Manu não está mais com o Marcelo, ele deixou de ser interessante a partir do momento que o conquistou e o afastou da amiga. Também não está mais na agência de publicidade, andou destratando os clientes, o que é inaceitável para uma recepcionista.

Quanto a Vitória, num desses passeios com o Fred, conheceu o Paulo, pai do Dudu e dono da Kika. Encontros casuais que estão se tornando cada dia mais esperados e frequentes. Já combinaram de almoçar juntos no Domingo de Páscoa. Decidiu dar uma chance a si mesma.

Essa é pra quem ainda duvida que o cão seja o melhor amigo do homem....





Acrescentei a minha caixinha de primeiros socorros

os meus amigos leais. (Edna Frigato)




Shadow/Mariasun Montañés 



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